Especial UFNS sobre a ditadura militar: pautas selecionadas

O projeto Um foca na sexta vai publicar, a partir do dia 31 de março, textos de estudantes de jornalismo sobre a atuação da imprensa no período da ditadura militar no Brasil (1964-1985). A data coincide com o aniversário de 50 anos do golpe militar de 1964, que deu início ao regime. A participação dos estudantes demonstra o interesse no assunto, mesmo se tratando de um período que provavelmente não viveram.

Veja abaixo quem são os estudantes selecionados e as pautas sugeridas por eles:

Jornal do Brasil

1. A atuação jornalística durante o governo Geisel (1974-79), por Priscila Pacheco, estudante do 7º semestre na Universidade Anhembi Morumbi.

2. A ascensão e a opinião no jornalismo econômico em meio ao “milagre econômico” na ditadura militar, por Ana Lethicia Maezano e Gabriel Moterani, estudantes do 5º semestre na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

3. Os precursores da imprensa LGBT e a atuação de veículos segmentados durante o regime militar brasileiro, por Leandro Fonseca, graduado em Jornalismo pela Universidade Nove de Julho (Uninove) em 2013.

Importante: o prazo para envio dos textos é 19 de março, quarta-feira. Não serão aceitos textos após essa data. Os textos serão publicados nos dias 31 de março (aniversário do golpe), 1º e 2 de abril, de acordo com a ordem de chegada.

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PARTICIPE: Especial sobre 50 anos do Golpe de 1964

ATUALIZAÇÃO: O prazo para envio de pautas foi estendido. Envie a sua sugestão de pauta completa, com um breve histórico sobre o tema que você quer abordar, sugestões de fontes com quem pretende conversar e um perfil profissional e acadêmico do(s) autor(es). Aceitamos propostas até dia 10/3, segunda-feira.

Com o aniversário de 50 anos do golpe militar de 1964, o projeto Um foca na sexta convida estudantes de Jornalismo de todo o Brasil a escrever a respeito da atuação da imprensa, como um todo, e dos jornalistas, em particular, ao longo do período de 21 anos de Ditadura Militar no Brasil. Os profissionais atuaram sob censura e ameaças de morte (vale lembrar o caso do jornalista Vladimir Herzog, considerado um divisor de águas na luta pela democratização).

Golpe Militar de 1964 no Jornal do Brasil

O material enviado pelos estudantes será publicado aqui no site na ocasião do cinquentenário, no final de março. O deadline para envio dos textos é sexta-feira, 14/3. Valem textos jornalísticos, apurados e com fontes atuantes no período, como repórteres, editores, ativistas etc. A ideia é revelar como a imprensa e os colegas atuaram apesar das dificuldades e das pressões, como fizeram para driblar a censura, casos específicos do período etc.

Quem quiser participar deve enviar um email com um pequeno perfil pessoal, acadêmico e profissional e a sugestão detalhada da pauta até segunda-feira, 24/2 10/3 para o email falecom@umfocanasexta.com. Vale participar sozinho ou em dupla. Dúvidas podem ser esclarecidas pelo email.

OPINIÃO: ‘Sou jornalista, sou jornalista!’

Por Victória Brotto* , formada pelo Mackenzie em 2013

SÃO PAULO, SP – A violência contra o jornalista brasileiro não é nova. Nem é sabida tardiamente pela ONU ou por órgãos humanitários internacionais, como o International News Safety Institute (INSI). O INSI ouve profissionais e empresas de comunicação mundo afora para tentar conhecer as necessidades e os problemas que enfrentam ao buscar que a integridade dos jornalistas seja assegurada. O resultado dessa pesquisa – questionários, datas, projeções, números, expectativas etc – fica disponível no site.

Cobertura de zonas de conflito

Atrás apenas do Oriente Médio e de um ou outro país africano, o Brasil aparece nos rankings entre os 20 países mais perigosos para jornalistas. Tudo começou na época que Tim Lopes foi assassinado no Rio de Janeiro. Desde então, as atenções do INSI e de organizações como a Human Rights Watch estão voltadas para cá.

Quando escrevi o livro “Silêncio e reconstrução, histórias de quatro jornalistas brasileiras em áreas de conflito“, com as jornalistas Mariana Lacreta Saraiva e Fernanda Masson, os dados de espancamento, sequestro e abuso emocional e sexual a jornalistas eram constantes nas nossas pesquisas. Egito, Síria, Irã e Líbia eram, à época (2012/2013), os países com mais casos de jornalistas violados – na maioria americanos e franceses, como Lara Logan, que foi estuprada no Egito, na praça Tahrir, por mais de vinte homens.

Logan, repórter da CBS americana, contou mais tarde, numa espécie de diário, como fez para sobreviver depois do que passou. Relatou, também, como era a rede de proteção oferecida pela empresa: treinamentos constantes, preparo psicológico, revezamento de profissionais em áreas de muito risco. O New York Times, por exemplo, leva a sério essa política: um dos mais influentes jornais do mundo não permite que um repórter permaneça durante muito tempo em meio a uma guerra. Sabe que o jornalista pode morrer ou até enlouquecer na cobertura.

Lara Logan sofreu agressões sexuais 'brutais' no Egito (clique para ler no 'Huff Post')

Lara Logan sofreu agressões sexuais ‘brutais’ no Egito (clique para ler no ‘Huff Post’)

Repórter e brasileira. Para o livro, entrevistamos algumas das principais jornalistas brasileiras no front: Adriana Carranca, Eliane Brum, Alice Martins e Lilia Teles. E escrevemos sobre as dificuldades de ser repórter mulher durante guerras e em situações de risco extremo. Na mesma época, o INSI publicou o livro “No Woman’s Land”, sobre jornalistas mulheres atuando na guerra. O diretor-executivo da Reuters falava da necessidade óbvia de proteger seus jornalistas – principalmente as mulheres, alvos sexuais e emocionais muito mais comuns durante conflitos do que os homens.

Nossa preocupação, entretanto, era falar também sobre a repórter brasileira. Ser jornalista da imprensa tupiniquim pode ser trágico na cobertura de uma guerra. Além das “violências sem dono”, é enorme o despreparo de jornais, revistas, redes de TV e sites brasileiros para proteger seus jornalistas. BBC, New York Times, Reuters, AFP, AP etc são imensamente mais bem preparados e mais responsáveis com seus profissionais. No Brasil, bastam-se com um seguro de vida, um “vai com Deus”, e um eventual treinamento vocal pra gritar diante de um policial armado: “Sou jornalista, sou jornalista!”.

Em um dos cursos que fiz sobre Jornalismo de guerra, em uma parceria da Oboré com a Cruz Vermelha, em 2011, o repórter Samy Adghirni, hoje correspondente da Folha de S.Paulo no Irã, falou sobre o que o protegeu durante a cobertura que fez da Revolta Árabe, no norte da África e em alguns países do Oriente Médio: um seguro de vida. Ele não foi treinado pelo jornal, não passou por qualquer preparo psicológico, não teve tempo sequer de estudar sobre autodefesa e táticas de sobrevivência. Nada.

No Brasil, existe sim um curso para jornalistas se prepararem para a guerra. É oferecido pelo Exército, mas só faz quem consegue se deslocar para o Rio de Janeiro. Para um jornalista de São Paulo trabalhando em uma rotina draconiana, é praticamente impensável. E acaba por aí. É de assustar a imprudência das empresas de comunicação brasileiras quando decidem enviar um jornalista para cobrir um protesto, uma guerra, países como o Afeganistão, a Síria, a Ucrânia… Como o Brasil.

É minimamente insano, em tempos em que a guerra está em todo lugar e os alvos são escolhidos à sorte, jogar um ser humano, sem qualquer proteção, em uma guerra ou um protesto para relatar, ouvir, viver e transitar entre os dois lados. Quem deveria começar a perceber isso é o próprio jornalista, que não é herói. Nem é capaz de segurar à unha as desgraças do mundo. O jornalista morre. Como Santiago. Como Ana, Maria, João, José. Colocar o culpado na fogueira não soluciona a morte nem isenta a empresa de não ter treinado e protegido seu profissional.


Victória Brotto*Victoria Brotto é formada em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e estudou Relações Internacionais e Estudos Europeus na Universidade de Coimbra, em Portugal. Como jornalista, trabalhou na Rede Globo de Televisão e atualmente é repórter política do jornal Diário do Comércio.

O projeto Um foca na sexta abre espaço para textos opinativos e analíticos de focas sobre temas do cotidiano ligados à profissão. Se você quer escrever ou se já publicou seu texto e gostaria de reproduzi-lo aqui, entre em contato. Em função da urgência dos temas, a publicação é imediata e não passa pelo processo de apadrinhamento dos textos do projeto. As opiniões manifestadas neste espaço são de inteira responsabilidade dos autores, não representando, necessariamente, o pensamento da equipe do projeto UFNS

OPINIÃO: Minhas esperanças morrem de overdose

Por Gustavo Nogueira*, estudante de Jornalismo da UFRN

NATAL, RN – Já era de se esperar que um dia a última gota d’água transbordaria nossa paciência. O dia de fato chegou. Entre os meses de junho e julho vimos um crescente movimento de indignação, indagação e insatisfação por parte da população brasileira diante de seus (des)governantes. O trabalho deles era simples: cumprir as promessas feitas antes das eleições. Descobrimos ao longo de décadas que as promessas em sua maioria nunca saem do papel, que a esperança diminuía a cada eleição. 2013 tornou-se um ano marcante pelo explodir dessa expectativa que já andava rarefeita. A paciência acabou. A esperança acabou.

O fato novo, com o qual temos de lidar agora, é a morte do cinegrafista Santiago Ilídio Andrade, de 49 anos, atingido por um rojão enquanto cobria manifestações sobre o aumento da passagem no Rio de Janeiro na última quinta-feira, 6. Ferido gravemente na cabeça, Santiago estava em coma induzido no CTI do Hospital Souza Aguiar e na segunda, 10, os médicos declararam perante a família e a imprensa a morte cerebral do paciente.

Santiago Ilídio Andrade

Mas que importância tem a morte de Santiago? Muito grande, ao menos no atual cenário sociopolítico nacional. O Brasil está longe – galáxias de distância – de ser um país ideal: sem miséria, economicamente viável e socialmente democrático. Mas nós tínhamos esperança. Para um lado da moeda, essa atual situação nacional é o habitat perfeito para uma certa espécie arisca e territorial sobreviver: a classe média.

Voltemos para junho. A primeira ação marcante das manifestações, naquela época, foi a repressão violenta, por parte da polícia, que impetuosamente e sem princípios tentava diluir os movimentos sociais, declaradamente ordenados pelos nossos (des)governantes. Era tempo de Copa das Confederações e o nosso país não poderia ser um campo de batalhas de direitos e deveres, mas felizmente – para despertar, mesmo que um pouco – foi.

Santiago hoje torna-se um símbolo das vítimas da violência, agora não mais por parte da polícia, mas dos manifestantes. Essa era a gota que faltava para transbordar os discursos políticos e mudar o tom da sociedade, transformando manifestantes (todos), agora, em verdadeiros criminosos. Essa última “gota de sangue”, à qual o cientista social Luiz Eduardo Soares se referiu, era tudo o que os poderosos queriam, estabelecendo, mais do que nunca, a muralha ideológica entre a classe média e os manifestantes.

Essa construção latente e firme de uma muralha vem sendo feita há muito tempo. Antes (em 2013), deixavam a classe média apavorada. Agora, com a morte de Santiago, o jogo virou. Esse é o novo cenário da aposta social entre manifestantes e (des)governantes após o infeliz acontecimento.

Com a abertura para novas discussões sobre as manifestações, o Senado prepara uma votação para um projeto que, segundo especialistas, abre brecha para a condenação de manifestantes como terroristas, com pena de 15 a 30 anos de reclusão. A proposta virou prioridade na pauta dos senadores na esteira da morte do cinegrafista. Esse é o resultado do novo cenário, invertendo valores que antes beneficiavam a população e que agora transformam a classe média, a imprensa, a polícia e os (des)governantes em “vítimas”.

Consegue visualizar, agora, que símbolo a morte de Santiago assume? É símbolo de mudanças direitistas e conservadoras. Nesse jogo sociopolítico, a morte de um profissional da mídia é a base para uma das propostas mais antidemocráticas deste país: a lei antimanifestações. Se aprovada, não apenas os cidadãos poderemos ser presos, mas também nossa voz será calada, mais uma vez.

Mais do que nunca, acredito na ideia de Eduardo Galeano sobre a ditadura do medo, de que os poderosos nos mantêm acuados para que não nos libertemos dessas amarras, para assim não sermos o que podemos ser. E isso, acredite, é tudo que eles não querem.

Em meio a debates, reportagens e reflexões sobre todos esses temas me vêm à mente as palavras de Cazuza, tão atuais hoje quanto na década de 80: “Meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder”.


Gustavo Nogueira*Gustavo Nogueira é estudante de jornalismo no 3º período da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com um tombo por cinema e literatura. Curte um festival de música assim como um bom gole de café. Enquanto não encontra seu rumo, continua achando que é a pedra no meio do caminho.

O projeto Um foca na sexta abre espaço para textos opinativos e analíticos de focas sobre temas do cotidiano ligados à profissão. Se você quer escrever ou se já publicou seu texto e gostaria de reproduzi-lo aqui, entre em contato. Em função da urgência dos temas, a publicação é imediata e não passa pelo processo de apadrinhamento dos textos do projeto. As opiniões manifestadas neste espaço são de inteira responsabilidade dos autores, não representando, necessariamente, o pensamento da equipe do projeto UFNS