É dos ‘metidos’ que as pautas gostam mais

Este texto, de Isadora Stentzler*, faz parte do espaço Um foca na sexta.

CHAPECÓ, SC – “A curiosidade matou o gato”, soprou alguém da Idade Média. Matou, é? Quem disse? A fonte vazou em off? Quem apurou? Alguém confirma? Filmaram? Tem foto? Não? Então nem pense em continuar repassando a informação! Afinal, talvez o gato fosse desses bichanos metidos a repórter e tenha usado da curiosidade para apurar uma pauta, desvendar um crime, publicar um livro e ganhar um prêmio de jornalismo. Aí, quem irá dizer, a frase veio dos recalques que bateram no sucesso do felino curioso e voltaram!

Até porque jornalista tem que ser meio gato, sabe? Não no sentido romantizado da palavra, mas no instinto, mesmo. Gato é bicho solto. Desgarrado. Metido. Espertalhão. E curioso, claro. Albert Einstein já dizia que mais importante que saber é ter curiosidade. Concordo. Não apenas para dar crédito à frase do físico alemão. Afinal, ele está morto e não precisa de puxa-saquismos. Concordo porque faz todo o sentindo. Ainda mais se falamos em jornalismo como a profissão de quem precisa saber “um pouco de tudo”.

Jornalista? Gato?

Curiosidade no sangue. Destes anos de pré-foca, algo ainda mais lamentável que a vida de foca, já deu para entender que o jornalista deve ter esse quê de curiosidade tal qual glóbulos no sangue. Porque é da curiosidade que vem a vontade. Do tipo “o que é que está acontecendo ali?”, sabe? É mais ou menos como ouvir a briga do vizinho. Você percebe o fato. Fica curioso. Corre pra ver o que está acontecendo… E, quando se trata de jornalismo, já sai anotando e ouvindo os envolvidos para escrever ou gravar uma boa matéria.

Ainda dá para comparar com aquelas crianças que te fazem perder a cabeça com seus “por quês” para tudo. A curiosidade, que por definição é a tendência que nos arrasta para ver, averiguar, checar, é o carro-chefe de qualquer apuração. Ela te faz pesquisar, que te faz conhecer, que te faz entender, que te faz perguntar, que te faz escrever, que te faz, enfim, e com sorte, publicar.

50 tons

Muitos tons. Já tive dessas. No início do ano, por exemplo, mergulhei numa pauta sobre sexo. Bem prazerosa não fossem os spankings do sadomasoquismo. Li “Cinquenta tons de cinza”. Vi fotos, assisti a vídeos, conversei com especialistas e com praticantes… O mínimo que um jornalista deveria fazer, é claro. Mesmo pré-foca, tive a sensação de ser um Caco Barcelos!

Foram semanas de apuração. Longas entrevistas. Achei até uma rede social que promove festas para os praticantes. Uma grande reportagem. Mas, se não fosse o tal “instinto gato” parar salvar a matéria, a pauta viria um release da história do Christian Grey e da Anastasia Steele e o texto não teria a menor graça, não teria nenhum tom de cinza.

É por isso que já bem definiu Acácio Ramos: “Repórteres são seres que perguntam. [Porém] Não basta perguntar. É preciso, primeiro, saber por que está perguntando; segundo, saber perguntar; e terceiro, conferir se a resposta está correta. Porque, se não tiver certeza disso, o repórter corre pelo menos o risco de passar à frente uma coisa que não seja verdadeira.” E para que todo esse processo aconteça, acrescento, é preciso ser um baita de um curioso.

Afinal, parafraseando o tio Freud, nunca devemos ter certeza de nada, porque a sabedoria começa com a dúvida!

*Isadora Stentzler é estudante do 3º ano de jornalismo do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). Apaixonada pelas artes, já pensou em ser atriz, estilista ou mambembe. Besteira! Apaixonou-se pela escrita e resolveu ser jornalista. Vegetariana desde janeiro de 1993, é do tipo que mistura o clássico com o contemporâneo e até gosta de ser chamada de “careta” quando o assunto é bom senso. No entanto, não nega, também é revolucionária. Ativista pelos direitos dos animais e do meio ambiente, ainda tem esperança de mudar o mundo com suas notinhas ou com alguma reportagem publicada num jornal. Recentemente, ganhou o Prêmio Tetra Pak de Jornalismo Ambiental, realizado em conjunto com as palestras da Semana Estado de Jornalismo Ambiental.

Coordenação e edição: Gabriel Toueg

Recado da Isa: “Quem é foca sabe: ter um espacinho, por menor que seja, para postar seus trabalhos, vale ouro. Ainda mais quando são aqueles com opinião, coisa que se deixa de lado quando se aprende a escrever notícia. Por isso, futuro do jornalismo, uni-vos no ‘Um foca na sexta’! Porque além de deixar seu rastro na web, de quebra compartilha experiências e aprende com gente como você”. Entenda e participe do projeto Um foca na sexta. Conheça os focas que já participaram.

Imagens: Reprodução

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