Lá e cá: o mito da imparcialidade – é possível ser sincero sem tomar posições?

Este texto, de Carolina Linhares*, faz parte do espaço Um foca na sexta.

SÃO PAULO, SP – Durante os quatro anos de faculdade, martelam em nós o conceito da tal da imparcialidade. É coerente, justo e sensato “ouvir os dois lados”, repetem, à exaustão. Quando abrimos o jornal, entretanto, não é o que vemos. Em geral, um lado aparece mais ou parece melhor que o outro. Para além de discussões sobre conglomerados midiáticos, seus interesses e manipulação, meu foco aqui é o jornalista, o ser humano. Nós, pessoas.

Também nós, jornalistas, temos um “eu” com juízos, crenças, posição política e (muitas) opiniões. Comunicadores sempre temos “aquela velha opinião formada sobre tudo”, um pitaco a dar sobre qualquer assunto. Aí, pra cobrir uma pauta, de repente você tem de se livrar do seu “eu” e ver o mundo sob os “olhos da imparcialidade”.

Imparcialidade?

Fazer escolhas. Desculpem, mas não dá! Sempre preferimos alguma parte. Temos nosso interesse misturado ao interesse público da pauta. Por mais que sejamos cheios de boas intenções, temos de fazer escolhas. Escolher aspas, escolher fontes. E nenhuma escolha é isenta. Além disso, quando saímos a campo para cobrir um fato qualquer, vemos e sentimos coisas que só quem estava lá pôde viver. Não poucas vezes, as aspas que anotamos não coincidem com o que vemos e sentimos. Mas… publicamos as aspas – porque elas são “reais” e nossas impressões, “inimigas da objetividade”.

Na minha cabeça, contudo, jornalista é aquele que vai ao local do fato e relata (reporta!) o que aconteceu para quem não estava lá. As impressões, então, não seriam mais verdadeiras que aspas burocráticas? A imparcialidade e a assunção das nossas escolhas não seriam, dessa forma, a maneira mais honesta de tratar o leitor? Afinal. o que legitima nosso discurso jornalístico? A imparcialidade (falsa) ou o “estar lá”, no olho do furacão?

Um mito. Andava eu pelos tortos caminhos de questionamento do dogma da imparcialidade. Um jornalista experiente vem me colocar nos eixos e dizer que devo “evitar tomar posições políticas”. Ele defende o “esforço constante de não envolvimento com o tema da reportagem”. Mas o “tema da reportagem” costuma ser algo que interessa e afeta a população e somos parte dela. Como, então, não se envolver?

Portanto, meus amigos, ouso cravar: a imparcialidade é um mito. Aquilo que nos ensinaram desde o primeiro dia não existe “enquanto resultado, mas deve existir enquanto busca”, dizem nossos veteranos. Porque, respondendo ao que questionei mais acima, é esse compromisso de informação precisa e isenta que banca nossa autoridade pra falar. E que é compatível com o modelo de negócio das empresas jornalísticas.

O conselho de vida que ouvimos por aí, então, é: “A objetividade é uma busca, um caminho, um esforço, mais do que uma meta em si. É o que garante nossa credibilidade para que sejamos ouvidos como espectadores críveis da história. Deixemos que os posicionamentos políticos e morais se restrinjam aos editoriais, sem contaminar as páginas noticiosas”. Ok. Se é assim, não vou mais questionar a importância de buscar a imparcialidade. Mas confesso: ainda vou me sentir desonesta com meu leitor a cada vez que cortar aspas, adjetivos e opiniões que eu queria que ele soubesse e levasse em conta na hora de pintar seu quadro sobre a realidade.

*Carolina Linhares é estudante do 4º ano de Jornalismo da USP. Já estagiou na Editora Abril e fez parte da graduação em Madrid. Apaixonada pelo mundo árabe, mantém um blog sobre o assunto e pretende trabalhar com jornalismo internacional.

Coordenação e edição: Gabriel Toueg

Recado da Carol: “O jornalismo – ou melhor, sua prática – sempre produz questões de ordem existencial ou simplesmente cotidianas que nos fazem pensar ‘e agora, José?’. Um foca na sexta é o espaço em que aqueles que se atreveram nesse caminho sem volta podem repartir mais as dúvidas do que as respostas. Que aprendamos com elas”.

Foto: Google Images

Anúncios

1 comentário

Algo a dizer?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s