OPINIÃO: Minhas esperanças morrem de overdose

Por Gustavo Nogueira*, estudante de Jornalismo da UFRN

NATAL, RN – Já era de se esperar que um dia a última gota d’água transbordaria nossa paciência. O dia de fato chegou. Entre os meses de junho e julho vimos um crescente movimento de indignação, indagação e insatisfação por parte da população brasileira diante de seus (des)governantes. O trabalho deles era simples: cumprir as promessas feitas antes das eleições. Descobrimos ao longo de décadas que as promessas em sua maioria nunca saem do papel, que a esperança diminuía a cada eleição. 2013 tornou-se um ano marcante pelo explodir dessa expectativa que já andava rarefeita. A paciência acabou. A esperança acabou.

O fato novo, com o qual temos de lidar agora, é a morte do cinegrafista Santiago Ilídio Andrade, de 49 anos, atingido por um rojão enquanto cobria manifestações sobre o aumento da passagem no Rio de Janeiro na última quinta-feira, 6. Ferido gravemente na cabeça, Santiago estava em coma induzido no CTI do Hospital Souza Aguiar e na segunda, 10, os médicos declararam perante a família e a imprensa a morte cerebral do paciente.

Santiago Ilídio Andrade

Mas que importância tem a morte de Santiago? Muito grande, ao menos no atual cenário sociopolítico nacional. O Brasil está longe – galáxias de distância – de ser um país ideal: sem miséria, economicamente viável e socialmente democrático. Mas nós tínhamos esperança. Para um lado da moeda, essa atual situação nacional é o habitat perfeito para uma certa espécie arisca e territorial sobreviver: a classe média.

Voltemos para junho. A primeira ação marcante das manifestações, naquela época, foi a repressão violenta, por parte da polícia, que impetuosamente e sem princípios tentava diluir os movimentos sociais, declaradamente ordenados pelos nossos (des)governantes. Era tempo de Copa das Confederações e o nosso país não poderia ser um campo de batalhas de direitos e deveres, mas felizmente – para despertar, mesmo que um pouco – foi.

Santiago hoje torna-se um símbolo das vítimas da violência, agora não mais por parte da polícia, mas dos manifestantes. Essa era a gota que faltava para transbordar os discursos políticos e mudar o tom da sociedade, transformando manifestantes (todos), agora, em verdadeiros criminosos. Essa última “gota de sangue”, à qual o cientista social Luiz Eduardo Soares se referiu, era tudo o que os poderosos queriam, estabelecendo, mais do que nunca, a muralha ideológica entre a classe média e os manifestantes.

Essa construção latente e firme de uma muralha vem sendo feita há muito tempo. Antes (em 2013), deixavam a classe média apavorada. Agora, com a morte de Santiago, o jogo virou. Esse é o novo cenário da aposta social entre manifestantes e (des)governantes após o infeliz acontecimento.

Com a abertura para novas discussões sobre as manifestações, o Senado prepara uma votação para um projeto que, segundo especialistas, abre brecha para a condenação de manifestantes como terroristas, com pena de 15 a 30 anos de reclusão. A proposta virou prioridade na pauta dos senadores na esteira da morte do cinegrafista. Esse é o resultado do novo cenário, invertendo valores que antes beneficiavam a população e que agora transformam a classe média, a imprensa, a polícia e os (des)governantes em “vítimas”.

Consegue visualizar, agora, que símbolo a morte de Santiago assume? É símbolo de mudanças direitistas e conservadoras. Nesse jogo sociopolítico, a morte de um profissional da mídia é a base para uma das propostas mais antidemocráticas deste país: a lei antimanifestações. Se aprovada, não apenas os cidadãos poderemos ser presos, mas também nossa voz será calada, mais uma vez.

Mais do que nunca, acredito na ideia de Eduardo Galeano sobre a ditadura do medo, de que os poderosos nos mantêm acuados para que não nos libertemos dessas amarras, para assim não sermos o que podemos ser. E isso, acredite, é tudo que eles não querem.

Em meio a debates, reportagens e reflexões sobre todos esses temas me vêm à mente as palavras de Cazuza, tão atuais hoje quanto na década de 80: “Meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder”.


Gustavo Nogueira*Gustavo Nogueira é estudante de jornalismo no 3º período da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com um tombo por cinema e literatura. Curte um festival de música assim como um bom gole de café. Enquanto não encontra seu rumo, continua achando que é a pedra no meio do caminho.

O projeto Um foca na sexta abre espaço para textos opinativos e analíticos de focas sobre temas do cotidiano ligados à profissão. Se você quer escrever ou se já publicou seu texto e gostaria de reproduzi-lo aqui, entre em contato. Em função da urgência dos temas, a publicação é imediata e não passa pelo processo de apadrinhamento dos textos do projeto. As opiniões manifestadas neste espaço são de inteira responsabilidade dos autores, não representando, necessariamente, o pensamento da equipe do projeto UFNS

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1 comentário

  1. Belíssima reflexão meu jovem e eterno aluno Gustavo. Mais uma “mazela” foi escrita na sinistra página da história de nosso País. Mas ainda resiste, apesar de bastante tímida, a velha que nunca morre, a esperança. Não em mais um título na “pomposa” e inescrupulosa COPA DO MUNDO, mas sim naqueles que irão financiá-la, O POVO.

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